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Talento ou Técnica? Eis a Questão.

Se é verdade que nada substitui o talento, é mais verdade ainda que nada substitui... a técnica. E aqueles que se aventuram com softwares de tratamento de imagens ou de desenhos vetoriais (como o nosso Inkscape, por exemplo) já devem ter notado isso.

De fato, se desenhar à mão livre exige técnica, desenhar com o Inkscape exige ainda mais. É preciso dominar uma série de conceitos que só fazem sentido no universo lingüístico do próprio software. Engana-se, no entanto, quem pensa que isso é ruim porque um software como o Inkscape, por exemplo, amplia as técnicas de um desenhista para níveis que margeiam a perfeição, permitindo a construção de imagens simétricas, com curvas matemáticas e uma precisão que torna o ideal muito próximo ou mesmo idêntico ao real.

Uma coisa é certa, os tempos mudaram e a tecnologia desses softwares fez nascer uma nova "raça" de desenhistas: os designers. Os desenhistas tradicionais perderam espaço para os designers e, nesse contexto, a tecnologia pode sugerir que o talento já não é tão insubstituível assim, e que a técnica tem um lugar mais digno ao sol. Será mesmo possível que o talento esteja se tornando algo, digamos, dispensável diante da técnica?

O talento consiste na capacidade que alguém tem para uma atividade específica e que torna essa atividade mais fácil para quem tem esse talento do que para que não o tem. Trata-se de um tipo de inteligência que é apropriada para certa atividade. Alguém com talento para a música, por exemplo, certamente terá mais facilidade para aprender música e, muito provavelmente, será um músico mais bem sucedido do que alguém que não o tenha.

No entanto, é preciso notar que o talento se dá no âmbito da mera capacidade e não da efetividade. De fato, o produto do talento não é algo imediatamente real, mas apenas idealizado. Por isso é que podemos distinguir se uma pessoa tem ou não tem talento para certa atividade mesmo quando essa pessoa ainda está tendo os seus primeiros contatos com a atividade em questão. Não é preciso esperar que uma pessoa que está aprendendo a tocar saxofone, por exemplo, domine todas as técnicas do instrumento para que saibamos se ela tem ou não tem talento para a música. Isso não significa, entretanto, que a técnica é dispensável. Para um pianista, por exemplo, não basta ter talento para que ele seja efetivamente um bom pianista, isto é, para que ele seja um pianista em sentido pleno. Afinal, não consideramos alguém um bom pianista quando ele tem uma mera capacidade de tocar piano, mas sim quando ele atualiza essa capacidade e efetivamente toca piano bem.

Para atualizar essa capacidade e efetivamente tocar piano bem, é preciso dominar um conjunto de procedimentos que se articulam entre si e visam à realização daquilo que foi idealizado pelo talento. Esse conjunto de procedimentos é justamente a técnica e, sem ela, não é possível realizar o produto idealizado pelo talento. Um pianista com talento e sem técnica idealizará acordes e melodias apreciáveis do ponto de vista musical, mas não conseguirá realizar esses acordes e melodias em conformidade com o que foi idealizado.

Por sua vez, alguém que não tenha talento, mas tenha técnica, também terá os seus problemas. Retomemos a nossa analogia com o pianista para elucidar a questão. Um pianista sem talento, com técnica pode tocar qualquer música. Porém será incapaz de criar a sua própria música ou de propor novos arranjos e interpretações. De fato, sem talento não há criatividade; afinal, talento é inteligência, é a capacidade de combinar e articular, de arranjar, de compor e recompor, de configurar. E mesmo que o pianista domine as técnicas de execução das músicas, ele não terá nada a dizer por conta própria porque sem talento a criatividade se torna estéril, o pianista será simplesmente um executor. Um artista com técnica e sem talento é como um escritor que domina a linguagem, mas não tem nada a dizer. Trata-se de alguém que tem um amplo vocabulário, mas não tem inteligência para compor, arranjar e articular as palavras que conhece, de modo que produza um texto coerente e belo. De fato, se a ausência de técnica bloqueia o talento, a ausência de talento torna a técnica um desperdício.

O problema de quem não tem talento e tem técnica, infelizmente, é insolúvel. Resta apenas reproduzir o que já existe com toda a técnica que possuir. O problema de quem tem talento e não tem técnica, por sua vez, tem solução: é preciso procurar ampliar as suas técnicas, de modo a eliminar o descompasso que existe entre o que é idealizado e o que é efetivado por meio da técnica. E na atual conjuntura tecnológica, isso equivale a dizer que é preciso dominar todas as funcionalidades e recursos dos softwares de tratamento de imagens, de modo que não existam limitações de ordem técnica para as criações das mentes talentosas.

Talento ou técnica? Eis a questão. Qualquer que seja a resposta que tenhamos para essa questão, se ela for unilateral, será insatisfatória. Precisamente porque talento e técnica se articulam de maneira dependente. Ter talento e não ter técnica é ter criatividade para combinar e articular conceitos e noções, mas ser incapaz de expressar o resultado de tudo isso de maneira concreta. Por sua vez, ter técnica e não ter talento é possuir os meios apropriados para concretizar os conceitos combinados e articulados pela inteligência, mas não conseguir forjar os seus próprios conceitos e, por conseguinte, não ter o que concretizar.

Talento ou técnica? Talento e técnica. Eis a resposta.

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Título Talento ou Técnica? Eis a Questão.
Autor Menphystofeles
Data 13/03/2008
rev 1 em 13 Mar 2008 por AurelioAHeckert
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